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A importância da televisão na divulgação do Cinema

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.01.09

 

Hoje é mesmo só uma breve introdução ao tema, para não ficarem com a ideia de ter desistido da travessia neste wild river...

Aqui ainda navego, apesar da jangada ficar presa por vezes nas rochas, e outros percalços pouco edificantes de quem se lança em wild rivers...

 

No post anterior, em que revivo as minhas introduções ao cinema, através da televisão, deixei perplexos alguns Viajantes. Ora, o título do post era precisamente As Gerações que amam o Cinema. A minha é a geração da televisão (bem, refiro-me a Portugal, porque nos EUA a televisão já existia há uma década...)

Nasci com ela e no lugar que habitava não havia estreias como em Lisboa, Porto e Coimbra. Tentei explicar - talvez não tenha conseguido -, que a televisão divulgava os clássicos, sobretudo os americanos. Isto só se repetirá nos anos 80 e 90, e não sou a única "a sentir saudades" dos old movies. (1)

 

A continuar...

 

Cá volto eu a navegar neste wild river que tem sido muito acarinhado pela equipa do Sapo, a quem agradeço o estímulo e a amabilidade.

Não conheço a maior parte dos Viajantes que aqui vão passando, mas pressinto que são das gerações pós-revolution, não? É só uma dedução, a partir de alguns comentários e do Perfil dos que me adicionaram como Amigo (os queridos!)

Ora, estas gerações não viveram a importância da televisão na divulgação do Cinema. É por isso que talvez tenha algum interesse falar-vos deste meu percurso cinematográfico, em que a televisão teve um papel predominante.

Lembrem-se: não havia cassettes nem os actuais DVDs. Isso só surgirá nos anos 80. E, como vos disse, no Clube do meu lugar projectavam filmes de série B ou C (westerns, de terror, etc.) E para as crianças, a Marisol e o Joselito. Embora me lembre vagamente de um Tintin de carne e osso, de um capitão Hadock praguejador e de um navio...

 

E em breve para mim, com a minha ida para o colégio, os filmes na televisão ficarão só para as férias: Natal, Páscoa e Verão. (2) Chama-se a este regime aluna interna, e essa foi mesmo uma das experiências mais insólitas da minha vida. Coimbra, 1968. Estamos no início da primavera marcelista. Este pormenor pode não parecer importante mas, em termos cinematográficos, vão ver que tem e muita!

No colégio só vi projectados dois documentários, e só registei na memória as Irmãs missionárias na Índia. Mas uma tarde fomos ao cinema: era um Sidney Poitier, aquele com a rapariguinha cega. (3) Um filme muito amável e comovente. Na altura impressionou-me essa amizade poética num mundo fechado e desigual. E no final fiquei um pouco desiludida porque estava à espera que os dois ficassem juntos. Uma amiga guineense e perita, segundo ela própria, em linguagem gestual dos black, garantiu-me que aquele último gesto do Sidney Poitier queria dizer que a iria procurar de novo. Confiei nos seus conhecimentos, dessas subtilezas que me escapavam, e fiquei mais consolada.

Desses anos do colégio ficaram-me sobretudo imagens e sons. E isso também é cinema, o nosso cinema, o nosso olhar. Do cimo daquela colina via-se o pôr de sol mais extraordinário, com o Mondego a serpentear lá em baixo. No Inverno eram os campos das laranjeiras alagados e uma neblina matinal. Nunca vi o sol romper tão magnífico, por entre as nuvens, como nas manhãs primaveris na Coimbra desses anos...

 

Portanto, por tudo isto posso dizer com inteira justiça que os melhores filmes que vi, pelo menos até aos meus 15 anos, antes das idas ao cinema, vi-os na televisão.

 

 

 

(1) Não sou só eu a "ter saudades da 'velha' programação temática de filmes." Leio na crónica "Cinema" de "A Minha TV" (Público, 26/01), de Jorge Mourinha: "Lembro-me que numa das primeiras colunas de 'A Minha TV', resmunguei por haver tão pouco cinema clássico na televisão portuguesa, e por a maior parte dos filmes que são exibidos nos canais de televisão generalistas serem não apenas recentes como sempre os mesmos. Desde então, confesso que não vejo grandes razões para mudar a minha opinião, apesar de ter havido mudanças (...); a RTP1 tem exibido alguns bons filmes à noite para audiências relativamente pequenas; e a RTP2 vai exibindo clássicos em alguns ciclos temáticos (os westerns na semana de Ano Novo) ou nas Sessões Duplas de sábado (...)."

 

(2)  As férias de Verão nesse tempo eram mesmo férias de Verão: Julho, Agosto e Setembro, só por nossa conta. E, no meu caso, de muitos livros e filmes...

 

(3) A Patch of Blue (1965).

 

 

 

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publicado às 15:49

Quando o Cinema antecipa a História

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.11.08

 

Guess Who's Coming to Dinner está carregado de significado histórico. Foi o último filme com o par mágico Katharine Hepburn-Spencer Tracy. E antecipou, de forma curiosa, a eleição de um Presidente-síntese racial e síntese cultural.

Só neste fim-de-semana, ao revê-lo no canal Hollywood, reparei que, no próprio filme, no diálogo entre o pai da rapariga (Spencer Tracy) e o médico com quem ela quer casar (Sidney Poitier) esse acontecimento é antecipado no plano do possível e de um optimismo (da rapariga):

Joanna diz que os nossos filhos podem até vir a ser Presidentes...

Um pouco adiante o pai da rapariga diz: Talvez daqui a 50, 100 anos...

 

Sim, o filme antecipa já novos tempos para a América...

Quase consigo imaginar o escândalo que o tema terá despertado na altura em muitas mentes fechadas. E não apenas na comunidade branca, digamos assim. Também o filme refere isso: a resistência àquele casamento é uma resistência das  duas comunidades (e inclui Tillie, a empregada que está naquela família há mais de 20 anos e quer proteger a sua menina).

Estava-se em 1967. E o mais fascinante dessa época é a incrível frescura de um certo Cinema, e de uma parte dos intelectuais, que contrasta com uma outra parte muito agarrada a tradições e preconceitos.

 

Mas voltemos ao filme: a resistência das duas comunidades. Como em Tillie, que assimilou, sem questionar, que uma coisa são os direitos civis. Outra, muito diferente, o que se passa aqui...

Essa resistência não é igual no lado feminino e no lado masculino. No lado feminino, esta resistência é só no primeiro impacto (fabulosa Katharine Hepburn!), pois são mais rápidas e flexíveis na aceitação da situação. Ou porque vêem e sentem o afecto genuíno daqueles dois, os fortes laços que os unem.

A resistência masculina permanece até ao fim (do filme, entenda-se).

Magnífico diálogo entre o pai da rapariga e a mãe do médico em que ela, apesar de perceber a sua motivação (dele) proteger aqueles dois, não via que iriam sofrer muito mais se não pudessem ficar juntos. E diz-lhe com lágrimas na voz: os homens, quando envelhecem, esquecem-se do amor que sentiram quando jovens...

É esta simples frase que mais impacto terá no pai da rapariga e que lhe dará o mote para aquele monólogo final, que é de cortar a respiração e de nos deixar arrepiados, porque é sobre aqueles dois mas também com aqueles outros dois: Spencer Tracy e Katharine Hepburn. É nesse monólogo que diz lembrar-se perfeitamente desse amor enquanto jovem, desse amor ainda vivo. E esta frase fica no ar: Se vocês sentirem um pelo outro metade do que nós sentimos, valerá a pena.

 

Ainda não lhes dediquei um texto neste rio sem regresso. Como foi isso possível, se têm sido uma das minhas maiores referências?

 

Mas hoje é da antecipação da História, e de Sidney Poitier que vou falar. Porque vi, há uns meses um documentário no canal ARTE e o papel simbólico de Sidney Poitier nesta mudança anunciada. Um papel de continuidade histórica também.

Sidney Poitier sabe que as anteriores gerações de actores afro-americanos lhe abriram um caminho, que ele continua. É como se lhe preparassem a possibilidade de dar o passo seguinte: de personagens com profissões subservientes (amas, empregadas domésticas, motoristas, seguranças, recepcionistas de hotel, moços de recados, etc.) para personagens com profissões com formação académica e socialmente mais influentes.

Interessante observar como também em Guess Who's Coming to Dinner vemos já uma diferença de postura e de atitude nas duas gerações. Uma, a do pai do médico, que teve ainda de lutar, numa sociedade que lhe lembra todos os dias a sua condição de "negro", para investir numa vida melhor para o filho. E outra, a do filho, que interiormente reformulou essa imagem social, para se afirmar noutra dimensão: a sua condição de homem, acima de tudo.

Também esta ideia de continuidade de um percurso cultural, de uma evolução de mentalidades está no filme:

No diálogo do médico com o seu pai, este, para o dissuadir do casamento, tenta o argumento da cobrança afectiva e lembra-lhe todos os anos de sacrifícios e privações para que ele pudesse ter um futuro melhor. Mas sem resultado. O filho responde-lhe à letra, que o que o pai fez por ele é o que um pai faz pelo filho, é o mesmo que ele próprio fará pelo seu filho. E por fim resume, no olhar e numa frase, tudo o que sente naquele momento: Eu amo-o, é o meu pai. E por isso só espera que o pai aceite a sua felicidade.

 

Sidney Poitier é um homem inteligente e com uma forma insólita e desarmante de abordar a questão racial. Em parte  porque não nasceu na realidade americana. Como ele próprio referiu no documentário: Na América os afro-americanos são uma minoria. Mas nas Caraíbas, somos a maioria da população.

Por isso, quando o questionaram sobre o seu fraco papel no activismo afro-americano, respondeu: Continuam a tentar reduzir-me a essa dimensão, a minha negritude. Mas essa é apenas uma das minhas facetas. Além de tudo o mais, sou um homem, sou um cidadão americano, tenho uma determinada personalidade, uma intervenção e uma história.

 

 

 

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publicado às 12:16


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